Há um certo mistério sobre o que acontece nas sessões de intervenção psicopedagógicas... E, confesso que, antes de estudar e atuar como psicopedagoga tinha muita curiosidade em saber. O problema era que alguns profissionais confundiam o fato do sigilo sobre determinadas informações expostas pelo aluno com o fato de não poder contar nada a ninguém! Acredito que o profissional deve manter a transparência de seu trabalho com os pais, informando-os sobre o quê está trabalhando com a criança/adolescente, bem como dizer sobre as técnicas que estão sendo utilizadas. Isso não é infligir qualquer conduta de sobre os expostos na sessão. Trata-se de manter a clareza de seu trabalho e de diminuir a ansiedade da família sobre o tratamento.
Menciono "tratamento" por ser se tratar de um processo focalizado na atuação de um problema dentro do contexto causa=sintoma. Sendo assim, a palavra "tratamento" adequa-se corretamente, segundo já comentado por Visca.
Outro fator que contribui para o mito existente na intervenção/tratamento psicopedagógico é a escassez de literatura sobre esse tema. Existem vários livros que descrevem, dentro das diversas abordagens, como deve ser a avaliação. Em boas faculdade de Pedagogia, os alunos aprendem sobre a mesma na graduação... mas, e depois?? Como fazer a intervenção?
Após a avaliação inicial, o psicopedagogo deve elaborar as hipóteses diagnósticas sobre os dados levantados. Observe o roteiro abaixo que pode facilitar o levantamento sobre essas hipóteses:
- No sujeito: são orgânicas? São afetivo-cognitivas?
- Psicológicas? (Encaminhe para um psicólogo - com relatório sobre os fatos observados)
- Na família? Como o sujeito "aprendeu a aprender"?
- Na escola? Problemas com a relação professor-aluno? Inadequação metodológica?
Se forem observados dados que envolvam o funcionamento orgânico, encaminhe ao Clínico Geral. Ele deverá fazer os encaminhamentos que julgar necessários para a investigação e não o psicopedagogo. É muito comum a realização de um encaminhamento diretamente para um Neurologista. Nós, enquanto psicopedagogos, não temos formação para diagnosticarmos distúrbios orgânicos, mesmo que a experiência na profissão nos aponte caminhos... Esse é outro erro comum que, infelizmente, não contribui para a desmistificação de nosso trabalho.
Depois de levantadas as hipóteses, devemos planejar o atendimento com dois focos (que, em hipótese alguma, devem ser perdidos!): a detecção dos sintomas e a dissolução das causas desses sintomas. Saberemos que nossas hipóteses estarão corretas conforme ocorrerem mudanças pós-procedimento do agente corretor.
Focar o trabalho somente nos sintomas significa garantir a manutenção das dificuldades da criança, ou seja, se agirmos assim, daremos "Aula de Reforço Escolar". Da mesma forma, intervir apenas nas causas das dificuldades conduz a um leque amplo de possibilidades de trabalho, que, se não apresentarem resultados em curto prazo, farão com que a auto-estima da criança se rebaixe ainda mais. Volto a frisar: "É importante delinear o foco a ser trabalhado na intervenção psicopedagógica porque a criança necessita se ver progredindo na vida escolar e se valorizar!"
Sei que pareço incisiva nas "críticas" sobre a postura e o resultado dos trabalhos de alguns colegas psicopedagogos. Desabafando: Na minha carreira docente, entrei em contato com muitos profissionais (ou pseudoprofissionais) que não conseguiam apontar caminhos para a resolução das dificuldades da criança, tornando os acompanhamentos intermináveis e infrutíferos, dando a impressão de só quererem o dinheiro dos pais. Vi também muita resistência dos pais em aceitar tal encaminhamento por esse motivo. E, quando resolvi estudar essa área, e percebi que as coisas podem ser diferentes, ou melhor, têm que ser diferentes... me "revoltei"! Pensei nos diversos alunos que tive que, ao passar por esses profissionais, acabaram apresentando mais dificuldades do que realmente tinham no momento do encaminhamento. Devemos ter consciência de nossa postura profissional, pois, nossa matéria-prima são vidas!

